21/02/2017

Dilma 2018

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Dada a sua experiência, embora traumática, na presidência da República, e até mesmo por isso, Dilma Rousseff, passada a rebordosa, aos poucos se reinsere na vida política nacional e reúne condições para ser uma boa parlamentar, principalmente se conseguir uma cadeira no Senado.

Na entrevista, Dilma se diz livre de rancores – o que é ótimo, pois sempre digo que o rancor faz mal só para um lado: aquele que o sente – e revisita a Lava Jato com ares de generalidade: "Esses processos são extremamente complicados. Ninguém no Brasil conhece todos os casos de corrupção que ocorrem hoje".

Não deixou de anunciar a cada vez mais propalada candidatura de Lula à presidência da República na eleição de 2018: "Apesar de todos as tentativas de destruir sua pessoa, sua história, Lula segue em primeiro lugar, segue sendo espontaneamente o mais votado".

E denuncia a premissa de um “segundo golpe” em gestação, que seria a “tentativa de criminalizar” Lula, com a intenção de retirá-lo, no tapetão, da disputa.

É 2018 fazendo as suas promessas em plena puberdade de 2017.

Crepúsculo em Masai Mara

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A fotografia, tomada por Paul Goldstein, retrata o entardecer no Parque Nacional de Masai Mara, o mais famoso do Quênia, situada no enorme Vale do Rift que vai desde o Mar Mediterrâneo até à África do Sul.

Tsunami em forma de delação

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O procurador Regional da República Carlos Fernando dos Santos Lima, em entrevista ontem (20) ao Estadão, aguçou a curiosidade de milhões de brasileiros e dobrou a dose de tranquilizantes de outro tanto de políticos ao resumir em uma frase a delação dos quase 80 ex-executivos da Odebrecht.

Declamou Carlos Lima que as revelações das delações vão provocar um “tsunami” na política brasileira e confirmarão que a corrupção existe em todos os níveis de governo, envolvendo partidos de esquerda e direita.

Isso, obviamente, já se sabe. O que o pessoal quer mesmo são os detalhes.

Na entrevista, Lima adverte o que eu tenho dito por aqui, e alhures, desde o tempo do mensalão:

A classe política tem que perceber que a sobrevivência dela depende dela mudar seus próprios atos. Se o sistema mudar, aqueles que vierem a sobreviver ao tsunami de revelações, quem sabe encaminhe o Brasil para um País melhor.”

Leia abaixo a entrevista:

20/02/2017

Raduan Nassar, o Boca do Inferno moderno

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Rumorejou no Brasil e em Portugal o quiproquó na entrega da edição 2016 do Prêmio Camões de literatura ao escritor brasileiro Raduan Nassar, na sexta-feira, 17, em São Paulo.

O quiproquó foi protagonizado pelo escritor galardoado e o ministro da Cultura Roberto Freire (PPS-SP).

Ao receber o Prêmio Camões, Nassar encarnou Gregório de Matos, um dos expoentes do barroco luso-brasileiro, alcunhado de “Boca do Inferno”: desatou a descompor o governo Temer, passou por Alexandre de Moraes, indicado de Temer para o STF, a quem adjetivou como uma “figura exótica”, e terminou no próprio STF, criticando a decisão do ministro Celso de Mello de manter a indicação de Moreira.

Sem se rogar, Roberto Freire quebrou o protocolo – o último a falar em eventos do tipo é sempre o premiado – e acusou Nassar de cuspir no prato que acabava de lamber, pois investia contra um governo que acabava de lhe conceder a maior honraria literária do país, que além da medalha de honra é acompanhado de um cheque de R$ 50 mil.

Logo, nessa dicotomia mecânica que vive a nação, começou um movimento, sugerido por Freire, para que Nassar devolvesse o prêmio e o dinheiro e fosse cozinhar camisas e broches para o PT comercializar.

Nassar até que pode ir costurar camisas se quiser, mas não tem que devolver coisa alguma. O Prêmio Camões foi instituído por um protocolo celebrado entre a República Portuguesa e a República Federativa do Brasil, portanto não é um prêmio concedido pelo governo Temer, mas por duas Repúblicas instituídas por Estados soberanos e Freire deveria saber a elementar diferença entre um governo e a República.

Posto isso, foram impertinentes os argumentos da réplica. Freire até poderia quebrar o protocolo e replicar Nassar, mas não com sustentação tão rasteira para o cargo que ocupa, pois, esse negócio de “quem fala o que quer ouve o que não quer”, tem limites de aplicação no protocolo da função que, algumas vezes, nos obriga a ouvir o que não queremos e nos impõe ficar calados pelos ossos do ofício.

A propósito, conheço de Raduan Nassar apenas duas obras e ambas são ótimas leituras: “Lavoura Arcaica” e “Um copo de cólera”.